A Convivência Familiar

6 fevereiro, 2011 por silvana   Categoria Artigos

Por Dom Dadeus Grings

dom_dadeus_1O mandamento do amor envolve dois pólos: Deus e o próximo. Na formulação, o amor a Deus tem precedência. Vem caracterizado por um caráter absoluto: de todo coração e com todas as forças. S. João, porém, dá primazia ao amor fraterno. Chama até de mentiroso quem diz amar a Deus mas odeia seu irmão. E argumenta: “aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus a quem não vê”(1 Jo.4,20).
O amor ao próximo não é aleatório. O escriba tinha razão histórica em perguntar acerca de quem é o próximo. Na verdade, o amor humano é orgânico. Obedece a uma hierarquia. Nenhum homem é uma ilha. Nosso primeiro amor, ou seja, o amor fundamental está na família. O ser humano não é indivíduo, que eventualmente se possa relacionar, mas nasce numa família e é família. Portanto seu amor é familiar. Começa com o amor paterno e materno. Os pais são instados a receber, com amor, os filhos. O amor paterno e materno decorre do sacramento do matrimônio, que infundiu no casal o amor conjugal e lhe dá condições de gerar filhos com amor. Vem, depois, o amor filial e, por fim, o amor fraterno, que se vai estendendo aos parentes.

A Igreja anuncia a Boa Nova da família. Resume-a no amor entre seus membros. Por isso as pessoas são convidadas a passar os melhores momentos da vida no próprio lar. Amar a própria família é colocá-la acima de qualquer outra solicitude. Brota da própria natureza da vida humana, que se plasma em família. Mas este amor - conjugal, parental, filial, fraterno – obtém não só um incentivo da fé, mas, acima de tudo, uma dimensão nova, pelo sacramento. O próprio amor de Deus é infundido nos seus corações e se difunde entre os seus membros. Ali se faz a primeira experiência do amor: de amar e de ser amado. Consequentemente, ali se encontra verdadeiramente Deus: quem ama conhece Deus. A experiência da vida em família é, na verdade, uma experiência de Deus.
A Igreja, apresentando a Boa Nova da família, quer firmar o lar sobre uma rocha firme, que é a fé em Jesus Cristo, que transforma a água das relações humanas no vinho do amor de Deus. A indissolubilidade matrimonial, propriedade essencial do sacramento, não constitui uma lei que possa ser contrastada pelo divórcio, mas representa uma graça, que enche de alegria e realização os cônjuges. É o próprio Deus que, pelo sacramento do matrimônio, os une por um vínculo de amor indefectível. Derrama neles seu próprio Amor, que frutifica em boas obras de paz, de solidariedade, de carinho, de dedicação recíproca e, sobretudo, em nova vida de filhos.
Cristo quis tornar o matrimônio um sinal do amor de Deus no mundo. Mostra que ainda existe amor entre os homens, que são capazes de deixar tudo para se unirem em matrimônio, tornando-se dois numa só carne. Para ressaltar esta característica, Deus começou a chamar, ao longo dos tempos da Igreja, pessoas que deixassem tudo para o seguir, na pobreza, castidade e obediência. Para uma mentalidade mundana isto é impossível. Está totalmente fora dos critérios e das perspectivas humanas. Mas não está fora da visão da fé. Nem se trata de algo puramente teórico. Nestes dois mil anos de Igreja, milhões de pessoas seguiram este caminho. Mostram que é possível e compensador. Vale a pena. Demonstra o poder de persuasão de Cristo, que atrai, chama e acolhe.

Fonte: Site da Aquidiocese de Porto Alegre